16 de abril de 2015

CONTO: A MEMÓRIA

Essa história é sobre uma garota. Uma garota normal, insegura e indecisa. Nada de incomum pra um conto, certo? Certo.
O nome da nossa protagonista é Clara. 
Clara tem alguns anos vividos, não são muitos, nem poucos. Ela costuma observar os detalhes das coisas, e às vezes fica tanto tempo olhando para um certo ponto que se desliga do mundo. São esses momentos que ela mais ama. 
Clara tem certas características peculiares; filmes e músicas são uma enorme influência em sua vida. Mas isso são apenas detalhes, vamos direto ao assunto. 
Ah, esqueci de dizer: essa também é uma história sobre amor.

Era primavera quando ela conheceu Guilherme.

Numa tarde, depois do almoço, Clara resolveu ir à livraria. Estava um clima nem muito quente nem muito frio, "agradável" ela pensou. Pegou um ônibus até o shopping mais próximo e caminhou até a livraria.

Observou a grande quantidade de pessoas comendo na praça de alimentação, entrando e saindo de lojas com as mãos lotadas de sacolas. Algumas pareciam felizes, normalmente adolescentes e crianças, os adultos estavam sempre com uma expressão fechada - até aqueles que compraram coisas. Ela achava aquilo estranho, mas por ser comum, não dava tanta importância. 
"Eu sei que é meio impossível, mas sempre que puder serei feliz." Ela prometeu à si mesma. Mal sabia ela que aquela felicidade dependeria de outra pessoa.
Ao chegar em frente a livraria, percebeu que poucas pessoas estavam lá dentro, comparado a enorme massa de gente que andava pelo shopping.
Entrou e foi olhar os lançamentos, aqueles livros que ficam expostos bem no começo da loja. Encontrou alguns títulos interessantes e anotou na sua lista aparentemente infinita de "livros para comprar". Andou por algumas prateleiras até encontrar um livro de fotografia. Parou ali mesmo e começou a folheá-lo.
Esse foi um daqueles momentos em que ela se desligou do mundo.

Guilherme acordou naquela manhã de primavera cansado e indisposto, mas havia marcado um almoço com seus amigos, então se obrigou a levantar da cama e ir ao shopping. Coincidentemente ou não, o mesmo shopping que Clara estaria. 
Guilherme era o tipo de garoto magro e alto, um pouco estranho e não muito bonito mas que, - mais uma vez - coincidentemente ou não, fazia o "tipo" de Clara.
De alguma forma, a personalidade dos dois era muito parecida. Ambos observavam os detalhes das coisas e se deixavam influenciar por filmes e músicas.
Após o almoço com seu grupo de amigos, Guilherme sugeriu uma ida a livraria, pois queria um livro novo para ler. Nenhum de seus colegas quis ir, ele não se importou e foi sozinho.
Quando chegou na livraria e se encaminhou a estante de "literatura estrangeira" avistou uma menina de cabelos longos e negros concentrada folheando um livro enorme. Ela usava uma camisa amarela que era um pouco grande para o seu tamanho e calça jeans. Nos pés estava um tênis preto. Ele olhou para seus pés e avistou o mesmo tênis que a garota usava. Sorriu.
Havia algo nela que prendeu a atenção dele.
Guilherme se aproximou da menina e fingiu olhar os títulos que ali estavam expostos.
Clara estava "desligada" do mundo e não percebeu ele ali.
Guilherme olhava Clara.
Clara olhava o livro.
E assim eles ficaram por um tempo.
Quando ela terminou de ver todo o livro e o fechou, olhou para o lado e viu olhos castanhos claros cravados nela. 
Ela se assustou, mas depois percebeu a beleza daquele menino e sorriu. Se virou para ir embora mas foi impedida por um "oi" que escapou dos lábios dele.
"Oi" ela voltou e respondeu.
"Qual é o seu nome?" 
"Meu nome é Clara, Guilherme."
"Como você sabe o meu nome?"
"Está escrito na sua pulseira" ela disse e apontou para o braço esquerdo dele.
Ele sorriu.
Ela sorriu.
"Você quer andar um pouco?" Ele sugeriu.
Ela pensou um pouco antes de falar algo.
"Eu nem te conheço, não vou andar por ai com você."
"Ok, te entendo. Mas você me daria o seu telefone? Talvez quando a gente se conhecer melhor, você aceite o meu convite."
"Tudo bem, pode ser."
Ela anotou seu telefone nos contatos dele, ele anotou seu telefone nos contatos dela.
"Então tá, tchau." Ela falou, um pouco tímida e foi se afastando.
"Tchau." Ele respondeu sorrindo.
Ela gravou aquele sorriso na sua mente.
Ele gravou aquele olhar na sua mente.

A partir daquele dia, eles passaram a conversar sempre. Aos poucos foram se conhecendo e criando um certo sentimento dentro de si.
Em uma das conversas, Guilherme perguntou:
"Me diz uma coisa que você sempre quis mas nunca fizeram com você."
"Um beijo inesperado. Daqueles de cinema sabe? A garota está brigando com o menino e ele dá um beijo nela pra mostrar o quanto a ama, por exemplo."
"Hm, interessante."
"E você?"
"Bom, não sei bem, acho que o que eu quero nesse momento e que nunca fizeram comigo seria que aquela garota que conheci na livraria duas semanas atrás aceitasse o meu convite."
Clara demorou dez minutos para responder.
"Ela aceita."

No outro dia, lá estavam eles, em frente a livraria. Ela chegou primeiro. Quando ele chegou, a abraçou. 
Ambos amaram aquele abraço.
Começaram a andar, mas ninguém falava nada. Ele pegou a mão dela.
Continuaram andando.
Nenhuma palavra foi dita.
Olhares foram trocados.
Sorrisos foram trocados.
Mas nenhuma palavra dita.
Quando Clara abriu a boca para perguntar se ele estava bem, Guilherme a beijou. Rapidamente e demoradamente.
Não foi um beijo de língua, foi um selinho normal.
Mas foi o beijo surpresa que ela sempre quis.
E foi melhor do que Clara esperava.
"Você realizou o que eu queria" ele disse ao se separar dela, "decidi realizar o que você queria".
Ela sorriu e o beijou novamente. Dessa vez foi aquele beijo que para os que observam de fora, é bem nojento.

Clara e Guilherme foram um casal por alguns meses. Mas não se casaram nem nada do gênero.
Clara foi feliz por causa dele.
Guilherme foi feliz por causa dela.

Eu sei que você deve estar pensando que o final seria um pouco diferente ou que esse final foi triste. Mas não foi.
Clara teve a experiência que sempre quis, o beijo inesperado.
Guilherme teve o melhor romance de sua vida.
Os dois saíram ganhando, de certa forma.

Hoje em dia, eles não se falam mais. Clara está casada e trabalha numa revista importante. Guilherme decidiu ser fotógrafo e está na África, capturando os momentos mais felizes dos lugares por onde passa.

Mas de vez em quando, aquele beijo ainda aparece na mente de cada um. Um flash de memória quase apagado pelo tempo, e que ainda permanece por causa do amor que carrega.
A memória mais importante dos dois.

Blog Widget by LinkWithin

Comente com o Facebook:

3 comentários:

  1. Um dos que chamaram minha atenção naquele e-mail! Muito bom ler esse conto aqui, é meio que mais uma prova de que a parceria colaborativa aconteceu <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Aw, Mi, tão bom ler isso! Fico muito feliz por tudo estar dando certo <3

      Excluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir